sábado, 23 de maio de 2015

Papo com os pais

   
      Hoje vou falar de uma maneira "nua e crua" com os pais de alunos que querem estudar fora.
      Diretamente ao assunto: qual a grande preocupação que, como pais, precisamos ter se nossos filhos quiserem estudar fora?
      Em uma frase: Vamos conseguir pagar?

Existem 2 tipos de bolsas oferecidas pelas universidades americanas:
- Merit based: por mérito, seja esportivo, acadêmico ou outro tipo de qualificação
- Need based: por necessidade. Esta pode ainda se subdividir em:
                            a) need blind: não interfere nas chances de ser admitido
                            b) need aware: pode interferir nas chances de ser admitido

  Bem, para entender melhor esse processo, é preciso saber qual o perfil que o aluno se encaixa:
1) Aluno brilhante, com um currículo excepcional e que busca estudar em uma das universidades top americanas
2) Aluno com um desempenho "normal"

A maioria das universidades "top" oferecem bolsas do tipo need blind. Isso significa que:
- se você comprovar que não tem como pagar, receberá bolsa integral
- se comprovar que só consegue pagar parcialmente, receberá bolsa parcial
- se não conseguir comprovar que não pode pagar, pagará integralmente.

Ouvimos inúmeras histórias de alunos que conseguiram bolsas, por isso, às vezes, subestimamos a importância dessa preocupação. Realmente, para os casos de alunos excepcionais, oportunidades não faltarão. Existem inúmeras histórias fantásticas de alunos que superaram condições inimagináveis e, hoje, estudam em Harvard, MIT, Stanford, Yale, etc, com bolsas totais ou parciais.

Bem, se o aluno for um "fenômeno acadêmico" ele possivelmente conseguirá uma bolsa de acordo com as necessidades financeiras (assim mesmo, será necessário enviar imposto de renda traduzido e um formulário no qual os pais detalham todo o salário ou rendimentos, propriedades que possuem, investimentos financeiros além de enumerar cada gasto que se tem em casa). Muitos desses alunos conseguem negociar boas bolsas, visto que a universidade tem muito interesse em tê-lo como aluno. Mas não se iluda, existem centenas de alunos muito bons do mundo inteiro, ou seja, ele não é uma "mercadoria" que será disputada a todo custo por uma universidade.
Cada universidade adota critérios próprios para concessão de bolsa. No caso de Harvard, as regras são muito claras: quem provar que tem renda anual menor que U$ 65 mil (e apenas 1 imóvel) receberá bolsa integral. Em Stanford, por exemplo, esse valor é de U$ 120 mil. Isso vale para alunos americanos ou internacionais.

     No caso de esporte universitário, as chances de bolsas são maiores, dependendo do nível competitivo e acadêmico do aluno. Mas, em geral, a grande maioria que vai pelo esporte, consegue bolsas parciais em universidades não tão bem ranqueadas academicamente.

            Para facilitar o raciocínio, vou dividir a explicação em 2 grandes grupos:
      1) quem pode pagar  até U$ 60,000 anuais (a anuidade pode variar de U$25,000 a U$60,000)
      2) quem não tem como pagar tudo isso.

      1) Se os pais têm como pagar a faculdade, tudo só dependerá do aluno:
          -  se ele for "fenômeno", vai conseguir estudar  nas melhores universidades (provavelmente pagando integralmente, ou pelo menos de acordo com suas possibilidades)
          -  se for mediano, ainda assim poderá conseguir melhores oportunidades do que, talvez, conseguisse se ficasse por aqui. Alguns chegam a dizer que, podendo pagar, é mais fácil entrar numa boa faculdade americana, do que passar no vestibular (obviamente que falo de uma boa faculdade brasileira!)
   
      2) quem não pode pagar, ou pode bancar apenas parcialmente. Lembre-se:
      -  Não é obrigação do governo americano ou de uma faculdade americana arcar com a educação de seu filho!
      -  No Brasil, não existe nenhum plano de bolsa ou financiamento (tipo FIES) para graduação completa fora do país.
      -  Principalmente com a crise atual, as doações e patrocínios estão ficando cada vez mais escassos

     Para alunos "normais", que sonham em estudar fora e cujos pais desejam oferecer as melhores oportunidades, é necessário estar preparado. Todo ano, centenas de alunos são aprovados. Nem todos conseguem ir. Muitos iniciam projetos de "crowdfunding", tentam patrocínios, buscam recursos de financiamento, mas nem sempre é o suficiente. Com a crise brasileira, está cada vez mais difícil conseguir patrocínios. A alegria da aprovação, transforma-se em angústia para se conseguir recursos e muitas vezes, frustração.
      Leio artigos e mais artigos que só falam do sonho e do sucesso dos que conseguiram. Mas, e a dura realidade dos que não tiveram recursos? Sei de casos de alunos que entraram em depressão. Imagina como é o peso na consciência dos pais que não puderam bancar a "grande oportunidade" na vida do filho?
      Não sou a favor de se hipervalorizar a conquista de algo inatingível à realidade de cada um. Sonhar é bom, ter desafios para ir além é maravilhoso. Mas, precisamos aprender a ter os "pés no chão" , encarando as verdadeiras possibilidades de cada família. Até porque, hoje em dia existem diversas formas de se estudar fora, com vários tipos de bolsa durante a faculdade aqui no Brasil. Pode-se fazer intercâmbios para conseguir duplo diploma, convênios das próprias universidades, estágios ou mesmo um curso ou especialização após se formar.
      Pode parecer que estou jogando "um balde de água fria" em quem lê este post. Mas, na verdade, é só um alerta. Se seu filho está se preparando para estudar fora, é extremamente importante os pais começarem a fazer suas economias!

     Bem, então é melhor esquecer o assunto?
                   Também não!

- Bem, para aqueles alunos com grandes potencialidades, é importante investir muito em se tornar um grande destaque acadêmico, porque aí é possível ser admitido nas melhores universidades do mundo. São essas que, em geral, oferecem bolsas compatíveis com o bolso dos pais.
- Existem muitas universidades que concedem bolsas por mérito. É preciso pesquisar bastante. O fato de uma universidade não ser famosa aqui, não significa que ela não é excelente. Muitas universidades concedem bolsas interessantes para alunos internacionais, mas em geral, são parciais.
- Muitas universidades européias são públicas, e portanto, gratuitas ou têm um custo bem mais em conta. Lá existe um grande interesse em alunos internacionais. O custo seria apenas de moradia e alimentação, que em alguns casos, existe até a possibilidade de bolsa ou financiamento. No caso de Portugal, algumas fazem o processo seletivo baseado no ENEM.
- Algumas fundações concedem bolsa, como a FUNDAÇÃO ESTUDAR (com rigoroso processo seletivo). Algumas universidades têm planos de financiamento próprio (sei que isso é possível em Princeton). Alguns conseguem alguma bolsa atleta. Existe bolsas fornecidas por alguns governos, como é o caso do Japão, que oferece a bolsa MEXT. Talvez exista algum tipo de auxílio por sociedades tipo Rotary, Lions, etc.
- NÃO É POSSÍVEL receber bolsa pelo CNPQ ou FAPESP para graduação completa fora do Brasil
- É possível trabalhar dentro do campus, mas existe uma legislação específica para o trabalho remunerado.


 

sábado, 16 de maio de 2015

Tempo de ser criança

   
      Cadê o amigo imaginário? Com quem as crianças ficavam horas e horas brincando, e, algumas vezes, era o convidado do jantar?
      E aquele trapo velho que se tornava o manto da princesa?
      Ou aquela toalha que era a capa de super-herói?
      Será que a lateral de sofá deixou de ser aquela montanha intransponível para os carrinhos voadores, nas mãos de uma criança?
      Mato e flor deixaram de ser a iguaria preparada para o jantar das bonecas amigas?
      E aquelas brincadeiras com regras malucas que a gente nunca mais entendeu?

      Hoje, as crianças não precisam de amigo imaginário para ficar no computador ou videogame. Tem roupinhas de boneca tão, ou mais lindas, do que as de gente. Existem circuitos com loopings fantásticos, carrinhos elétricos e de alta velocidade. Tem até papinha de boneca e a boneca chega a fazer xixi e cocô nas fraldas! Prá que imaginar, se já tem tudo pronto? Ah, e brincadeiras? Tudo tem que ser educativo, afinal, para que perder tempo com brincadeiras que não levam a lugar nenhum?!

      Sinceramente, estou assustada. Vivemos uma época em que está cada vez mais comum crianças com 2-3 anos saberem ler e escrever! Aí, mães encantadas correm para tentar estimular cada vez mais essas crianças com jogos educativos e atividades estimulantes.

      E o tempo de ser criança?!
      Tempo para aprender a ler e escrever, elas terão de sobra! Vão precisar fazer isso para o resto de suas vidas. Mas, e o tempo de brincar sem hora para acabar? Vivendo só aquela fantasia do momento, sem que isso tenha que servir para alguma coisa no futuro?
   
      O grande privilégio de ser criança é que, para ela, só existe o tempo presente. Ela não precisa viver o passado, nem o futuro. E estamos tirando isso delas! Até porque tudo tem que ter hora marcada. Hora de acordar para ir para escola. Na escola, existe a hora de brinquedo, a hora de atividade, a hora do parquinho, a hora de comer e a hora de ninar. Ai da criança que estava no meio de uma grande luta entre o herói e o vilão, mas tocou o sinal e todo mundo tem que mudar a atividade. (é, sei que não tem jeito!)
      Para onde está indo a criatividade? E o faz-de-conta? Até as cantigas de criança estão sendo consideradas politicamente incorretas e só ensinamos as educativas.( Não que eu concorde que "atirei o pau no gato" seja a música ideal para as crianças, mas todos nós cantávamos e sobrevivemos. Se bobear, maltratávamos menos os animais do que as crianças atuais!). Todas as atividades tem que ser direcionadas? Tudo tem que estimular e não se pode "perder tempo"?
      Não me admira a geração de ansiosos que estamos criando. Além disso, os jovens, cada vez mais, são do tipo que iniciam e interrompem projetos, como quem troca de roupa. Não se vinculam afetivamente porque não precisam de gente, basta ter rede social.
      Reclamamos desta geração de crianças com déficit de atenção e hiperatividade, mas somos nós que os enchemos de estímulos o tempo inteiro. A mamãe grávida que fica ouvindo música clássica para o bebê, os móbiles coloridos e com musiquinhas, os brinquedos educativos, tablets, celulares e videogames... Como a professora, na escola, vai poder ganhar mais atenção do que todos esses atrativos?

       Talvez esteja surgindo uma nova geração, a das crianças superestimuladas. Nesse mundo, em que tempo é dinheiro, parece existir uma pressa muito grande em "adiantar" as fases de desenvolvimento das crianças. Basta ver em porta de escola, as mães se gabando que o filho já sabe contar até 1000 ou que já sabe ler, ou que fez um comentário "altamente" amadurecido!
      Mas, pense bem, tem aqueles que começaram a dar seus primeiros passos aos 10 meses e aqueles que só aprenderam a andar com 1 ano e meio. Hoje, todo mundo anda igual! Qual a vantagem?!
      Atropelar a infância, com certeza, vai levar a grandes lacunas sócio-emocionais. Assistir 500 vezes o mesmo desenho, já antecipando a fala do personagem é menos educativo do que passar de fase naquele jogo didático do computador?! Os estudos comprovam o quanto é importante brincar. Ao imitar e imaginar as situações no "faz-de-conta" a criança simula as relações futuras. Ao repetir as falas dos personagens, ela internaliza algumas reações que vai precisar ter quando crescer.
      Vai existir um momento ideal para que eles se dediquem aos estudos, enveredem por caminhos desafiadores e superem as expectativas. A busca desta sabedoria, de estarmos presentes, apoiando e estimulando no tempo certo, sem atropelarmos cada fase que o filho vive é uma das missões mais difíceis de entendermos.
      Mas, hoje, só quero pensar naqueles pequenininhos:
      Cadê o tempo de ser criança?!
 

quarta-feira, 13 de maio de 2015

Por que escrevo?

      Não cheguei aos 50 anos, mas estou quase lá. Meus filhos já andam pelas próprias pernas, tenho um marido maravilhoso, após quase 21 anos de casada e sinto que cheguei a uma certa maturidade profissional, após 25 anos de formada. Nossa esfera social também é grande e me envolvo com diversos tipos de projetos. Pratico esporte, viajamos bastante. Temos uma família unida, todos com saúde e temos uma estabilidade financeira. Ainda me sinto jovem, porém sem a ansiedade de conquistas, mas com a tranquilidade da auto-aceitação.
   
       Nossa, fantástico não?! Quem lê pode até achar que estou sendo arrogante ao dizer tudo isso, o que não é verdade. No fundo, é uma reflexão. Quando tinha a idade de meus filhos, imaginava que precisava estudar, batalhar para conquistar tudo aquilo que, hoje, já conquistei. Só que, e agora?! Quais desafios posso ter?

       Sinto que certa experiência e maturidade vão minimizando as incertezas. Tenho a jovialidade, que talvez não me permita praticar o esporte como já pratiquei, mas não me impede de desfrutar de momentos de descontração. A estabilidade tanto no âmbito pessoal, familiar e profissional me trazem uma grande sensação de segurança.
      Esse é o momento que mais me sinto capacitada, mas a inquietude é por pensar que não há muito mais o que conquistar. Talvez sinta que faltam novos desafios.

       Hoje em dia, existe uma tendência gourmet em se fazer "pratos desconstruídos". Seria uma nova forma de apresentar um prato, onde se desconstrói a apresentação tradicional, valorizando cada ingrediente de uma maneira diferente, buscando-se aprimorar sua degustação.
      Sinto-me impelida a me "desconstruir" também, tentando entender a essência do que sou. Talvez seja por isso que escrevo.
     Analisar as palavras a serem usadas para escrever um texto, ajuda a perceber a importância de cada ingrediente de uma experiência vivida. Compor o texto me faz analisar como isso poderá influenciar aquele que lê (a apresentação do prato influencia na apreciação do sabor). Reler o post e teclar o ícone "publicar" traz uma certa emoção como sentem os participantes de concursos tipo "masterchef", quando levam seus pratos para serem avaliados pelos juízes do concurso.

      Ao escrever sinto que compartilho experiências adquiridas. Talvez, elas possam ajudar outros em situações semelhantes. Não sei quantos lêem, não sei quem lê. Escrevo para um leitor imaginário, que quem sabe, seja eu mesma.

   
   
   

sábado, 9 de maio de 2015

A escolha certa

      Por que será que temos a sensação de que as pessoas bem sucedidas sempre souberam fazer a escolha certa?
      Diante de diversas opções, parece que eles sempre sabem escolher o melhor caminho, não?!
      Então, qual o segredo para acertar a escolha?

      A meu ver, o segredo não é fazer a escolha certa, mas, sim, fazer dar certo, a escolha feita.
   
      A essa altura, acho que todos aqueles que foram aprovados em mais de uma universidade, já tiveram que fazer sua opção. No ano passado, viajei com meu filho para conhecer as universidades em que ele tinha entrado, e, ficamos vislumbrados com todas: Columbia, Princeton, Duke, UC Berkeley e Caltech.

      Meu Deus, qual escolher?! Pedi muita sabedoria divina. Essa era a minha prece.

      A dificuldade é ter que optar entre alternativas sensacionais. O que valorizar mais? Como mãe, tive meus receios em fazer comentários que pudessem influenciá-lo. Não sabia se deveria dar meus palpites, afinal, conheço muito menos desse mundo acadêmico do que ele. Por outro lado, dentro de nossos corações, a gente tem alguns "feelings".
      Mas sabe o que descobri? Hoje, tenho a certeza de que qualquer que fosse a opção dele, essa teria sido a melhor escolha, porque sei que ele faria com que ela desse certo. Ele curte a universidade, é feliz lá dentro, está produzindo muito academicamente, faz parte do time de tênis e canta em grupo a capella. Encontrou seu grupo de amigos e se encontrou lá dentro.

      Inspiro-me naqueles que chegaram muito longe. Eles não perdem tempo se remoendo pelas escolhas feitas. Eles têm quase uma obstinação em buscar suas metas. Como aquela parede de alpinismo. Chega no topo aquele que opta por olhar para cima e subir. Talvez até mude os rumos durante a subida. A cada momento, encontra-se diante de diversas alternativas tendo que escolher qual apoio vai segurar, mas traça seu plano estratégico e vai. Para eles, eventualmente faz parte de sua estratégia mudar totalmente o seu rumo. É só lembrar de Steve Jobs que abandonou tudo e foi fazer suas viagens malucas, abandonou a faculdade e até fez curso de caligrafia. E, lá no final, falou que "a vida é só um ligar de pontos". Ao olhar para trás você verá que tudo vai fazer sentido.

      Parabéns a todos os que passaram em várias universidades. Sei que as decisões podem depender de fatores diversos, como por exemplo, a melhor alternativa de bolsa. Talvez alguns, mesmo que aprovados, não poderão arcar com os custos. Não se imagine vítima do destino. Faça acontecer. Assuma como decisão sua o abandonar aquele sonho lá de trás e encontre uma trilha nova. Há muitas situações em que não se consegue alcançar aquilo que sonhou, ou quem sabe, você reconheça que o caminho atual não é o melhor. A qualquer momento você pode escolher mudar. Decida que vai dar uma guinada e reinvente-se. Não se consuma achando que perdeu tempo ou que se desgastou por nada. Resilientemente, decida seu novo destino.
      Olhe o caminho do alpinista, a cada passo, ele tem uma escolha a fazer. São inúmeras as opções, não existe uma escolha certa, mas faça com que todas as suas escolhas te façam alcançar o topo.
   
   

   


quarta-feira, 8 de abril de 2015

ESTUDAR FORA É PRA VOCÊ?


Hoje vou conversar com você, estudante do Ensino Médio. Será que estudar fora é para você?
    
    De acordo com as respostas às seguintes perguntas, você mesmo chegará a uma conclusão.


     1) Como você se imagina daqui 10 anos?
     Se você leva a vida conforme a maré e não sabe onde quer chegar, jamais saberá se vale a pena estudar fora. Faça esse exercício: feche os olhos, reflita um pouco  e mentalize como será a sua vida daqui 10 anos.
     Se você não enxerga nada, ainda está muito imaturo para tomar uma decisão. Dificilmente conseguirá estudar fora. Não saberá escolher para qual universidade aplicar, não conseguirá dizer o que quer buscar e assim, não terá uma história de vida convincente para contar nos "essays", que são as redações do processo de application em que você conta quem é. ( Nos EUA, além das notas, eles valorizam o que você é e aonde quer chegar)


     Bem, mas se você já sabe onde quer estar daqui 10 anos, vá para a próxima pergunta.


     2) Para chegar onde quer, você precisa estudar fora? E, tem que ser agora?
     Não é porque "tá na moda" que o melhor caminho é estudar fora. Muitas vezes, vale a pena fazer a faculdade por aqui e um intercâmbio durante a faculdade. Existem intercâmbios mais completos que permitirão você obter um duplo diploma. Existe a possibilidade de você terminar a faculdade aqui e fazer só a pós-graduação fora.       


      É, mas tudo depende, também, de onde você quer estar daqui 10 anos. Se não aspira muita coisa, pode até se dar ao luxo de fazer intercâmbio só para "passear".


     Já me disseram que existem 2 grandes alegrias para o aluno que passa no vestibular aqui no Brasil. A alegria de entrar na faculdade e a de sair. Parece que grande parte pensa que faculdade é só para conseguir um diploma e a carreira só começa depois. A maior prova disso é o quanto os alunos se envolvem basicamente com festas e atlética, bastando assinar a lista de presença e passar de ano, colando nas provas.


     Então, tá! Se você não ambiciona muito, tudo certo! Mas aí, não vale a pena fazer a graduação nos EUA.


     Agora, se você quer algo diferente do que as faculdades daqui oferecem, se você sente que precisa um grande leque de oportunidades para produzir muito, ainda durante a graduação, vá para a próxima pergunta:


     3) Você vai conseguir se virar sozinho?
     Se você não consegue nem acordar sozinho, sempre se atrasa para a escola, esquece os prazos e deveres, não mantém um mínimo de organização em seu próprio quarto, não tem horário para dormir ou comer, etc... como você acha que vai conseguir se estruturar para viver sozinho?
     Se você não sabe cuidar da sua saúde, imagine o que é ficar doente longe da sua família!
     Se você não mantém uma organização básica de seus pertences, como poderá dividir o quarto com um colega?
     e por aí vai!


     Ah, você é responsável o suficiente para morar longe da família, então vamos à próxima pergunta:


     4) Porque uma universidade americana vai escolher justamente você para ser aluno, se tem gente do mundo inteiro querendo estudar lá?
     O sistema de seleção das universidades americanas leva em conta diversos parâmetros. Eu diria que notas no SAT ou ACT (o ENEM americano) e no TOEFL (prova de proficiência em inglês) são apenas um pré-requisito. Os melhores alunos do mundo inteiro escolhem as melhores universidades (sim, existe um "ranking" das universidades também). Então, você terá que se sobressair entre milhares de concorrentes que são excelentes alunos. Se não tiver notas espetaculares, nem dá prá começar a pleitear algumas universidades.
Ah, e não pense que é só praticamente "gabaritar" o SAT e TOEFL, não! Vale também a sua média de notas no colégio em que estuda. Eles pedem a sua classificação de desempenho, ou seja: se você é o aluno "number 1", ou se faz parte dos 5% melhores alunos, ou 10% ou 20%... Bem, nem é preciso dizer que se você é um aluno bem mediano, suas possibilidades são menores, né!

     Mas, é claro que, se você tentar ser escolhido por uma universidade não tão "top", o nível das notas dos seus concorrentes também será menor. Esse é o "jogo". Entendendo bem o processo de seleção, sua probabilidade de ser aprovado é grande.
     Assim, tente fazer um simulado de SAT e ter uma noção de qual o nível da sua pontuação. Pesquise quais são as universidades em que a média de nota dos alunos aprovados foi semelhante à sua, e você saberá onde suas chances de ser admitido será maior. ( esse link, por exemplo, dá uma idéia aproximada: http://www.collegeconfidential.com/ : clique em "find a college", "my scores" e insira o score que conseguiu no SAT, então você verá uma lista de probabilidades). Você pode pesquisar no www.niche.com também


     Bem, se não é só nota, o que vale então?
     Hoje em dia, a maior parte das universidades busca uma seleção mais holística. Eles querem saber quem você é, o que já fez da vida, como você lida com seus sonhos e frustrações ou até onde você será capaz de chegar. Cada universidade valoriza algum aspecto que julga ser importante para aquele momento. Por exemplo, se você se envolve em um projeto social, se você já teve algum negócio (empreendedorismo), se você é um grande esportista ou tem um dom magnífico. Sei lá, qualquer coisa que te faça único e fantástico.
     Reflita mais um pouco e analise o que faz de você uma pessoa brilhante. Tão brilhante que faça uma universidade desejar que você faça parte dela. Que faça a universidade querer investir no seu potencial e te abrir as portas para você produzir grandes feitos no futuro.
     Pronto, esse é o segredo. Se você conseguir convencer quem lê seus "essays" de que a universidade "precisa" ter você como aluno, você será admitido!


    É claro que eles vão tentar se certificar de que tudo que você escreveu é verdade! Então eles vão pedir cartas de recomendação a seus professores e ao diretor da escola. Ao pedir essas cartas, as universidades também querem saber o que os professores pensam sobre você. As cartas devem falar sobre aspectos de sua personalidade, a forma como você se comporta diante de diversas situações ou sobre seus feitos e suas superações. Não é apenas uma formalidade, tem que ser muito pessoal. Em geral, o professor escreve diretamente para a faculdade e você até declara que não vai ler o que foi escrito. Eles vão tentar enxergar, através dos olhos dos seus professores, como você é verdadeiramente. (Por isso, a escolha de quais professores saberão escrever estas cartas é muito importante!). 
Eventualmente, também podem solicitar uma entrevista pessoal, por telefone ou por skype com algum representante da universidade no Brasil (em geral, ex-alunos).


     Taí! Esse é o famoso processo de "application". Acha que dá para encarar? Então passe para a próxima pergunta:


     5) Por onde começo?
     Escolhendo em quais universidades você gostaria de estudar.      
     Essa é a primeira pergunta realizada por qualquer orientador. No Brasil, algumas são mais "famosas". Muitas pessoas valorizam só Harvard ou MIT, mas existem outras centenas de possibilidades que, talvez, sejam até mais proveitosas dependendo do que você vai buscar.
     Mas como conhecê-las? Em geral, é preciso conversar com muitos veteranos, pesquisar na internet, ouvir recomendações de professores e, se possível, até conhecê-las "in loco".
    Cada universidade tem um perfil diferente. Existem universidades que admitem mais de 12.000 alunos por ano e outras, apenas 250. Analise se você gostaria de morar em cidade grande ou pequena, se gostaria que fosse próxima a grandes metrópoles ou à praia, ou até mesmo, longe de tudo. Pense se o clima influencia seu bem estar, então, considere se a região é muito fria, se neva muito, ou se você prefere o calor. Bem, se você gosta de praticar esportes, lembre que em universidades de primeira e segunda divisão na liga esportiva (NCAA: National Collegiate Athletic Association), dificilmente você terá oportunidade de competir pela faculdade (mas poderá treinar em grupo mais recreativos). Procure conhecer quais atividades extra-acadêmicas ou "clubes" em que você poderia se envolver. Você gostaria de conviver com mais brasileiros ou isso não tem importância. Essa universidade é forte na sua área de interesse, quais as perspectivas do aluno que se forma lá (nível de empregabilidade). Quanto custa e quais as possibilidades de bolsa.

     Se você conversar com qualquer brasileiro estudando lá perceberá quão grande é a diferença do sistema de educação americano. Você terá as portas abertas para desenvolver todo seu potencial dentro da universidade. (é claro, só se você correr atrás). Em geral, você é quem escolhe as matérias que irá cursar e aos poucos definirá qual será seu "major" (área principal de sua formação) e "minors" (extras). Toda a vivência te dará um “background” tão grande que valorizará ainda mais o seu currículo. O networking te abrirá portas. Enfim, acredito que você estará muito além do que você inicialmente imaginou onde estaria daqui 10 anos!


     Bem, se você chegou a ler até aqui, PARABÉNS. Acho que você não terá dificuldades em conseguir fazer a graduação nos EUA. Daqui prá frente, só vou listar as dúvidas mais frequentes de quem está iniciando nesse processo:


     6) Ahhhh, mas são centenas de faculdades! Para quantas devo aplicar?
     Os americanos adoram tabela e classificações. Então eles costumam orientar que você separe as faculdades segundo as seguintes possibilidades:      
   - REACH: a universidade dos sonhos, mesmo que você ache quase impossível ser aprovado, mas você a deseja demais. Seria quase utópico passar, mas se você nem tentar, jamais terá a possibilidade de entrar!
   - MATCH: as universidades em que você provavelmente conseguirá ser admitido, seja pelo nível das suas notas, ou por algum projeto que tenha desenvolvido,
   - SAFETY: aquelas em que você seguramente tem todas as condições para ser admitido.
  
     Assim, muitos orientam aplicar para 2 REACH, 6 MATCH e 2 SAFETY.

Aplicando assim, provavelmente você será aprovado em algumas das 6 prováveis, se tudo der errado, você pode ser aprovado nas "safety", e quem sabe, não consegue a façanha de entrar naquela que você achava impossível ?!  Esse é o segredo para ser aprovado, saber escolher para quais universidades aplicar!
 (É claro que existem alunos tão fantásticos que acabam aplicando só para as "top" e passam em 5 ou 6 das melhores universidades do mundo!)


     7) Quando começar o processo de application?
     No 3º ano do Ensino Médio você começará a preencher o “application” propriamente dito. O ideal seria que você já tenha deixado tudo “meio preparado” (atividades extra-acadêmicas, alguns prêmios acadêmicos, projetos desenvolvidos, medalhas em olimpíadas científicas, enfim, alguns feitos que mostrarão quão “brilhante” você é).
Também deverá estar bem preparado para fazer o SAT e o TOEFL.
     Quanto antes começar a desenvolver um “grande projeto”, mais histórias terá para contar. Muitos se dedicam às olimpíadas científicas. Só quem vive em meio a essas olimpíadas sabem quão viciantes, extenuantes, excitantes elas são. No entanto, por mais difícil que seja o caminho para conseguir chegar a uma olimpíada internacional, mesmo que ganhando medalhas, nem sempre isso é suficiente para entrar em algumas universidades. É interessante ter outras experiências de vida também. Mas tem que ser algo genuíno, que seja feito de coração. Não adianta dizer que foi fazer um projeto voluntário em uma ONG, 3 vezes por semana. O importante é que você faça algo que leve a uma transformação, seja sua, ou das pessoas envolvidas ou da sociedade. Você precisa fazer algo que realmente faça a diferença, mas porque você se envolveu com paixão. No mínimo, isso será maravilhoso para você mesmo!
Esse voluntariado deve ser genuíno, por compaixão e com paixão!

 
     A maioria das universidades americanas solicita o COMMON APP, que seria um application on line padrão. Algumas solicitam quesitos adicionais, tais como "essays" suplementares,  cartas de recomendação, etc.
     As UC (Universidades da Califórnia) têm um application próprio que valem para todas as UC e suplementos individualizados.
     O MIT tem um application exclusivo.


     Neste link: http://www.collegedata.com/cs/content/common_app_colleges.jhtml tem uma tabela com as datas limite de envio dos applications (essa tabela só vale para as common app). Cada faculdade tem uma data própria. (nos sites das UC e do MIT também terão as orientações específicas)
     Você notará que a tabela discrimina o Early Decision, Early Action e Regular Admission.
     Regular Admission é o processo normal. Algumas universidades aceitam uma inscrição que denominam como Early Decision, em que você aplica antes e tem o resultado antes, mas se compromete a estudar lá se for aprovado. No Early Action, você aplica antes, tem o resultado antes, mas pode optar por outra faculdade. A vantagem em aplicar antes é apenas de ficar tranquilo que já passou em pelo menos alguma. (há controvérsias se é mais fácil ou mais difícil ser admitido quando se aplica “early”)


     8) Quando saem os resultados?
     Lembrar que o ano letivo nos EUA começa em agosto/setembro. Então caso você seja aprovado, vai terminar o 3º colegial e terá praticamente 1 semestre de “folga”.
     Os resultados das “early” costumam sair em dezembro. As demais variam bastante, mas em geral entre março e abril.


     9) E se for aprovado em várias faculdades?
     Primeiramente: PARABÉNNNSSSS!!!!
     Aí começa um processo interessante. São as universidades que começam a “disputar” o aluno que ela aprovou. Em geral, existe um fim de semana em que o aluno é convidado a participar de uma série de atividades. A universidade promove palestras, brincadeiras, refeições, tentando “convencer” o aluno a estudar lá. Vale a pena participar desse evento (em geral ocorrem em abril/maio). Quando você é aprovado em várias universidades, conhecer cada uma e sentir onde você se sentirá “mais em casa”, ajudará a decidir qual a melhor escolha a fazer.


     10) Quanto custa? Tem bolsa?
     Bem, aqui é que a situação complica!
     Existem 2 tipos de bolsas oferecidas pelas universidades americanas:
  • Merit based: por mérito, seja esportivo, acadêmico ou outro tipo de qualificação
  • Need based: por necessidade. Esta pode ainda se subdividir em:
need blind: não interfere nas chances em ser admitido
need aware: pode interferir nas chances em ser admitido
  
     Algumas fundações concedem bolsa como, por exemplo, a Fundação Estudar (com um rigoroso processo de seleção próprio) Também existem alguns tipos de financiamentos, bolsa atleta e outras entidades que oferecem bolsas específicas. Não é possível receber bolsa pela CNPQ ou FAPESP para graduação completa fora do Brasil.


     Como a maioria das universidades “top” são need blind, se você for aprovado nestas:
  • comprovando que não tem como pagar, receberá a bolsa integral
  • se comprovar que só consegue pagar parcialmente, receberá bolsa parcial
  • se não conseguir comprovar que não pode pagar, pagará integralmente.


     Muitos alunos conseguem bolsa para o “esporte universitário” (futebol, tênis, natação, vôlei, entre outros). São bolsas para estudar em universidades de primeira ou segunda divisão no NCAA. O ranking acadêmico da universidade não tem relação com o esportivo, ou seja uma faculdade de primeira divisão no esporte pode ser muito forte ou fraca academicamente. Mas, mesmo assim, sempre se exige um bom desempenho acadêmico do atleta, além de treinamento intenso e resultados expressivos no esporte.


    Em geral, as universidades tem uma anuidade que varia de uns U$ 25,000 até U$ 60,000. Para muitos alunos o pagamento terá mesmo que vir do “PAITROCÍNIO” . Bem, mas isso já é uma conversa que você terá que ter com sua família!!!


     Espero ter ajudado a você refletir se quer estudar fora e se valerá a pena.
     Fica a minha torcida, para que você se descubra, ouse sonhar, tenha as armas certas e saiba usá-las para batalhar, e, enfim desfrute da sua conquista, que será só mais um passo para uma conquista ainda maior!

     

terça-feira, 24 de março de 2015

Os universitários de hoje são "geração mimada"?

      Acabo de atender uma paciente de 17 anos. Estudiosa, fez o Ensino Médio em um dos melhores colégios da Zona Leste. Dedicou-se muito e passou direto no curso de Publicidade na USP. Hoje está muito desiludida. Para quem estava acostumada a estudar demais, agora ela vai à faculdade e tem poucas aulas (é só meio período). Na verdade, muitas vezes o professor não dá aula, só manda ler alguns capítulos do livro e fazer um trabalho. Os colegas (em geral, bem mais velhos) curtem mais as festas e a atlética do que se preocupam em estudar. Está com dificuldade em se enturmar, pois não encontra um grupo com que se identifique. Os pais não têm nenhuma forma de interferirem nesse processo.
      Já por outro lado, na mídia, recentemente saiu um artigo sobre a faculdade Belas Artes, onde se realizam reuniões com os pais, adota-se o boletim e se considera que a maioria dos alunos desta geração são "mimados"  http://www1.folha.uol.com.br/cotidiano/2015/03/1606430-faculdade-faz-ate-reuniao-de-pais-contra-geracao-mimada.shtml
   
      Imagine-se um jovem de 17 anos. Você vai para uma faculdade onde todos se consideram "adultos". Então, para se enturmar, você vai adotar os mesmos valores. Muitas vezes acaba se empolgando com as festas, as bebidas (ou até drogas) e só se preocupa em "passar de ano". Curte muito essa fase, achando que faculdade é isso.
      Por outro lado, vamos supor que seus pais estão pagando a sua faculdade, por isso até têm um certo "poder" para exigir desempenho. A faculdade, que é uma empresa, precisa "agradar" quem paga. Assim, vai valorizar as exigências dos pais.

      Na prática, todos vão se formar. O mercado de trabalho vai selecionar o jovem mais bem preparado. Qual dessas formações será a melhor?
      Caímos no velho jargão de sempre: tudo depende. Tem aqueles que estudarão muito, mesmo sem a tutoria dos pais, e os filhos que não estudarão nada, mesmo com uma grande "marcação cerrada". Além de tudo, nem sempre se dá melhor o que mais estudou.
   
      Não sei como são as outras faculdades americanas, mas na Caltech, existem várias reuniões de pais. Essas reuniões servem para apresentar a Instituição, discutir os programas dos cursos, tirar dúvidas dos pais, apresentar projetos que os filhos podem desenvolver, etc. Eles também têm um grupo "Caltech parents", que sempre passam informações de tudo que transcorre dentro da Universidade, organizam reuniões familiares em diversas localidades do país (onde uma família, recebe a comunidade Caltech de sua região, em sua própria casa) e zelam por pequenos cuidados aos alunos como se estivessem cuidando de seus filhos (um exemplo disso é o "kit de sobrevivência às finals": um pacote enviado a cada aluno, com um monte de tranqueirinhas, tipo salgadinho, chocolate, guloseimas e até ioiô, para desestressar os alunos nas provas finais de cada trimestre. Eles pedem que enviemos um dinheiro, em média U$ 20, para financiar essa compra e também nos enviam um papel para escrevermos um bilhetinho de "boa sorte". Ah, mas não cobram dos alunos internacionais!)
      Outro cuidado é que a Universidade contrata um tipo de "diretor". Ele mora em um casarão, praticamente dentro do campus. Sua única função é fazer os alunos felizes. Ele abre sua casa para reunir os alunos, faz refeições ou deixa os alunos usarem sua cozinha para prepararem uma comida.
      Têm departamento de acompanhamento psicológico, departamento para alunos internacionais e outro para as minorias. Existe um grande sistema de tutores, seja no alojamento ou orientadores que auxiliam nas questões acadêmicas.
      Como mantém sempre as informações atualizadas, seja em twitter ou facebook, é muito fácil sabermos sobre resultados de jogos ou atividades extra-curriculares.
      Os pais, portanto, acompanham a vida do seu filho, mas sem precisar vigiar seu boletim. Eu diria, que podemos nos envolver com o universo deles, sem controlá-los.

      Talvez tudo isso favoreça um ambiente que os estimule a estudar, a desenvolver projetos e a alcançar excelência acadêmica. Por outro lado, não descartam totalmente a importância dos pais, nos permitindo participar da vida deles, sem interferir na autonomia dos jovens.

      Só porque um filho entra na faculdade, ele não adquire o direito de, simplesmente, romper com toda a nossa preocupação e cuidado para com a vida deles. Acho que tudo isso é um processo. Os que são verdadeiramente "mimados" são aqueles que acreditam que têm direito de levar a faculdade do jeito que querem, bebendo, indo para festas sem hora para voltar, não dando satisfação de nada, mas ainda dependendo de nossa "casa, comida e roupa lavada"!
     

   

terça-feira, 10 de março de 2015

De geração em geração

      Imagine uma criança que nasceu no interior de São Paulo há mais de 70 anos, mas foi criada em Mato Grosso (na época em que tudo era, literalmente, só mato grosso). Morava em casa de pau-a-pique, com telhado de sapé. Foi a caçula de 11 irmãos, tendo estudado apenas até o equivalente ao 5º ano atual.
      Imagine também uma criação de bicho da seda. Para quem não sabe, é a larva de uma espécie de mariposa, usada na fabricação de fios de seda. Ela se alimenta compulsivamente de folhas de amoreira. Em uma criação familiar, as crianças desde bem pequenas (5-6 anos) precisam ajudar a alimentá-las, acordando as 4 horas da madrugada para o trabalho. Assim, ele estudou apenas até o 6º ano.
      Essa é a história de meus pais. Tiveram uma infância inimaginável para as crianças dessa era tecnológica que vivemos. Sem ter muito estudo, mas trabalhando demais, conseguiram criar e educar 3 filhas. Nós 3 somos médicas, e estamos oferecendo aos nossos filhos o "top" da educação atual.
      Desde pequenas sempre ouvíamos: "não vamos deixar para vocês bens materiais, mas a melhor herança que vocês terão será a educação". Fizeram o que nem podiam, para que nós 3 pudéssemos estudar. Graças a eles, tivemos condições de cursarmos Medicina, nas melhores universidades deste país.
         
      São esses os valores que passamos aos filhos. Vale a pena batalhar pelo futuro. Ser feliz é ter uma vida produtiva.

      A geração atual quer tudo na mão, desde o "fast food" até os relacionamentos em que "fica-se" com alguém enquanto não há problemas, mas se algo não dá certo, cada um segue seu caminho. Não se "perde tempo" para cultivar um projeto de longo prazo, seja ele no âmbito pessoal, acadêmico ou profissional. O mundo está muito imediatista. Muitas vezes, busca-se uma profissão, seja porque o vestibular é mais fácil ou porque se pode ficar rico logo. Busca-se avidamente uma felicidade fugaz: se não estou feliz agora, vou buscar a felicidade em outro caminho.

      Muitos pais querem tão bem seus filhos que acabam fazendo mal. Costumo orientar meus pacientes falando:
      - Imagina que tenho um bolo aqui, maravilhoso, de chocolate. Seu filho te pede um pedaço. Eu te aviso que o bolo está estragado. Você vai ter coragem de dar um pedacinho a ele? É óbvio que não. Não importa o quanto ele chore, "sofra" ou faça escândalo.
      O problema é que muitas vezes, os pais não enxergam quando o bolo está estragado, acreditando que estão somente dando "felicidade" ao fazer todas as vontades dos filhos.
   
      Outro conceito que muitos pais acabam passando é que estudar é sofrimento: "Tadinho, tá estudando tanto!" (Ninguém fala: "tadinho, tá ficando tanto tempo de férias!").
      O que é ser feliz?! Alguém acredita que aqueles que estão estudando e se formando nas melhores universidades, são mais infelizes do que aqueles que não estudam? Muito pelo contrário, eles se sentem extremamente felizes por terem a oportunidade de estudarem tanto!
   
      Meus pais deram um pulo social tremendo, graças aos valores que tinham e nos passaram. É isso que tento perpetuar. Eu e meu marido trabalhamos bastante, tentando oferecer as melhores oportunidades aos nossos filhos. Por outro lado, os dois se dedicam muito, valorizando os estudos, sabendo priorizar suas responsabilidades e conquistas de metas. Sabem abrir mão de prazeres que curtem, mas visando algo maior, lá na frente. Acreditam que a felicidade vai muito além de "viver o agora".
       
      De geração em geração vemos os frutos de tudo que foi semeado. A felicidade existe muito além do sacrifício que meus pais fizeram a vida toda. Hoje, ao verem os netos encaminhados, eles valorizam cada momento sofrido que já tiveram.
      A felicidade é um fruto a ser colhido a longo prazo.