segunda-feira, 5 de junho de 2017

Pós-adolescente

          


          Há uns dias, ouvi um universitário se auto-denominando "pós-adolescente". Adorei o termo!
          Então, minhas palavras hoje são para vocês.
          Sei que às vezes dá vontade de jogar tudo para o alto!
          Cobranças e prazos; muito mais do que não se quer fazer e bem pouco do que se gostaria de fazer.
          Nunca ser compreendido sobre a falta de sentido de tudo que lhes é cobrado.
          E, ao olhar ao redor, descobrir que quem mais se dá bem na vida não são aqueles que fizeram tudo certinho!


          Então os convido a um momento de reflexão:
- Para onde vão todos os sonhos e ideais puros de uma criança?

- Em que momento aquela vontade de transformar o mundo se transforma em conformismo?
- Pior, quando ela começa a achar que é normal pisar nos outros para subir na vida?

Sempre falamos que a criança é egocêntica, a história de "o sol nasceu para mim". Mas isso ocorre simplesmente porque a criança tem um campo de visão muito pequeno. Ela só vê o restrito mundo que a cerca, onde todos estão voltados a atender suas necessidades.
A medida que ela vai crescendo, ganhando autonomia, ela vai descobrindo um universo que precisa dela, mais do que ela precisa de alguém. É o momento em que ela brinca vestindo uma fantasia e  acredita ser um super-herói para salvar o mundo. Ela sonha sempre com o bem vencendo o mal, e realmente acredita que poderá fazer um bem para a humanidade.
De repente, na adolescência, começa a conviver com sua "tribo". Talvez um primeiro teste de sobrevivência. Mesmo assim, ao sonhar com sua profissão, idealiza um projeto bom. Ninguém quer ser médico para ferir ou matar, nem um advogado para descobrir como burlar a lei ou um engenheiro para  destruir o mundo.
Por que tantos jovens dedicam-se tanto ao vestibular mas, ao serem aprovados, muitos se decepcionam e até desistem daquela faculdade? Qual o sentido de matarem aulas, colarem em provas e darem muito mais importância às festas, bebidas e drogas do que a própria vida acadêmica em si? Na verdade, ninguém precisa gostar de dissecar cadáver para se tornar médico, mas é essencial que se aprenda anatomia. Também não é preciso adorar cálculo para projetar uma ponte, mas se não tiver essa noção, muitas vidas podem se perder. Nem é preciso adorar decorar picuinhas de toda a legislação para defender o direito de um inocente, mas se não adquirir esse conhecimento, não exercerá sua função a contento. É fundamental que o aluno tenha uma formação bastante ampla, para construir uma base sólida. O problema é que nessa sociedade imediatista, parece que a carreira é que precisa agradar o aluno assim que ele entra na universidade.
É verdade que nem sempre a sociedade consegue evoluir na velocidade da transformação dos jovens. Os adultos parecem estar a anos-luz da fase em que um dia tinha que ter 24 horas para curtir a vida, 24 horas para dormir e, é claro que jamais esquecendo das responsabilidades, mais algumas horas para estudar!
A medida que vão adentrando no mundo adulto, a realidade da rotina sem encantamentos começa a apagar os sonhos?
Aquele super-herói com poderes incríveis e ideais sublimes descobre suas limitações e começa a buscar apenas interesses pessoais?

Quando foi que a sua essência se perdeu?

Pois é, quando pequeninas, as crianças acreditam em um senso de justiça e meritocracia próprios. Em sua lógica, elas acreditam que quem se dedicar merece a "recompensa" pelo esforço feito. No entanto, a medida que vão crescendo, percebem que nem tudo é tão simples assim. De repente, descobrem que existem outros que podem até ser melhores do que eles (alguns jamais haviam pensado nessa possibilidade). Muitas vezes, descobrem um mundo real e uma sociedade onde outros se apropriam, justa ou injustamente, de algo que eles tanto buscam e que lhes parecia seu por direito.
Então, em algum momento começam a desacreditar em seu poder de transformar o mundo. Deixam de sonhar e passam a correr apenas atrás de seus interesses pessoais. Diante da dura realidade, depara-se com uma sociedade corrupta, onde cada um só pensa em si. Infelizmente, vivemos a cultura do "levar vantagem", a famosa lei de Gérson. Vendemos a imagem que os mais bem-sucedidos são os que conseguem ser mais "espertos".

Não me admira ver tantas pessoas em depressão. Qual o sentido da vida para elas? Muitas não vivem, apenas sobrevivem. Perderam-se os sonhos, desacreditou-se no futuro. Não há mais esperança de poder transformar o mundo. É preciso batalhar muito para conseguir se adaptar ao presente. Todos vestem sua máscara de bem-sucedido e buscam bens materiais para fingir que tudo está bem.

Puxa, é muito triste ver tantos caminhando assim! Por isso, hoje gostaria de deixar um recado a vocês, pós-adolescentes, antes que comecem a vida adulta já sem seus sonhos:


- NÃO PERCA SUA ESSÊNCIA. Acredite que você pode fazer a diferença na vida de alguém e que o mundo pode ser melhor por sua causa. Não desanime no meio do caminho! Olhe para o futuro. Continue a sonhar! Hoje, talvez muito do que você esteja estudando ou fazendo possa não fazer sentido, mas fará parte de tudo no que você vai se transformar.

Acredite em você com a pureza de uma criança, sem se contaminar pelas inseguranças da sociedade.
O tempo passa muito rápido (eu que o diga! rsrsrsr). Não o desperdice sofrendo, reclamando, achando que nada vale a pena!
O futuro fica mais próximo daqueles que nele focam, acreditando que cada instante atual é só mais uma fase a ser vencida.
Ser "pós-adolescente" ainda é brincar de ser adulto. Dá para curtir muito, errar bastante mas é preciso construir um caminho!

domingo, 9 de abril de 2017

Suicídios na Medicina

 


O assunto hoje é bem denso!
        Recentemente ocorreram 3 tentativas de suicídio entre alunos da Faculdade de Medicina da USP (e ouvi dizer que ocorreram mais 5 outras tentativas nessa mesma turma, mas não tenho certeza do fato).
        Sou médica formada pela USP há quase 30 anos. Quando eu era caloura, fiquei chocada ao saber do suicídio de um aluno do 5º ano, no entanto, pior do que isso, foi descobrir que existia a piada do “um por turma” e que os alunos brincavam tentando descobrir quem seria o colega da sua própria turma.
        Esse índice também é alto no ITA e em outras universidades de excelência mundo afora.
        O que leva a esse ato de desespero?
        Ouço muitas vezes que a culpa é do próprio aluno:
          - Ah, ele devia estar em depressão!
          - Ele é que era “estranho”!
          - Tinha uma vida cheia de problemas…
        E por aí vai.
        Será?!
        Muitos desses estudantes são alunos brilhantes que estudaram a vida inteira e que provaram suas potencialidades ao passarem pelos vestibulares mais difíceis e nunca demonstraram nenhum perfil patológico, surpreendendo até às pessoas mais próximas, quando tentaram encontrar no suicídio a solução para suas angústias. Muitos estão envolvidos com diversas atividades acadêmicas e esportivas e mantendo alto nível de conhecimento científico. Em geral, são extremamente comprometidos com o paciente, sofrendo com eles a limitação da Medicina no combate à doença.
São jovens sonhadores que acreditam que podem abraçar o mundo e salvar a humanidade. Em pleno vigor da juventude querem participar de todas as festas, esportes e vida social. Por outro lado, preocupam-se com o futuro, em conseguir as melhores oportunidades para se tornarem os melhores médicos. Para isso precisam estudar demais!
        Desde pequenos eram acostumados a serem os melhores de sua turma, mas agora, nessas faculdades de elite, todos seus colegas são “os melhores”, então fica difícil se destacar entre eles. Mas ouvem sempre aquela voz interna de que precisa continuar sendo e fazendo o melhor. Em geral, essa cobrança é interna, mas muitas vezes, a família e o ambiente acadêmico também reforçam essas convicções. Diga-se de passagem, o ambiente em que vivem é verdadeiramente competitivo!
        Os professores que ensinam hoje, já passaram por tudo isso. Nós, médicos mais antigos, temos orgulho de contar as histórias de tanta dificuldade pelas quais passamos e superamos. Frases como “o diamante é uma pedra bruta que precisa passar por um enorme processo de lapidação até se tornar brilhante” torna-se para alguns uma inspiração.
        Lembro-me que falávamos que o médico era a pessoa mais "feliz" do mundo. Ficávamos hiper felizes quando conseguíamos almoçar! Puxa, ir ao banheiro a hora que a bexiga chamava nos dava uma incrível sensação de satisfação! Se pudéssemos dormir 8 horas por noite, com certeza foi porque fizemos algo tremendo para merecer tamanho privilégio! Assim, o médico era a pessoa mais feliz do mundo, porque a rotina era tão absurdamente extenuante, que só ter o direito de fazer qualquer dessas coisas mais triviais da vida já nos enchia de felicidade!
        Só que, às vezes ao apertar demais, o parafuso espana!
        Li alguns depoimentos de alunos que sentem essa pressão. São alunos que reclamam por estarem em seus limites. Dormir 4-5 horas por noite é a regra para alunos de Medicina. Eles não reclamam de que estudam demais, mas de que, apesar de estudar tanto, a prova exige algo que não foi o estudado, vindo então a FRUSTRAÇÃO. Se reclamam com os professores, ouvem que isso é importante para que eles aprendam que precisarão estudar assim a vida inteira. Que não basta ser bom, tem que ser “o melhor”.
        Em particular, os jovens que fazem Medicina lidam muito com o significado de vida e morte e tem hora que esse limite se torna muito tênue. Convivem com o sofrimento e a desesperança da doença. Os pacientes só contam seus problemas. Muitos alunos não conseguem criar uma “capa de autoproteção” para não se envolverem com aqueles que o procuram. E não existe um suporte das próprias faculdades para que os alunos aprendam a conviver com essas angústias. Pressupõe-se que cada um tem que ser forte o suficiente.
        Toda essa carga de stress acumulado, predispõe à doenças. Doente, o rendimento cai, mas o aluno não se dá ao luxo de ficar doente. Então vê sua produtividade caindo e se sente pior ainda.
        Como todos os alunos vivem o mesmo momento, o ambiente entre eles é tenso! O clima de desânimo, frustração e irritação vai gerando muitas discussões e conflitos. O espírito competitivo também pode influenciar, chegando ao ponto do clima entre os alunos ser mais de discórdia do que de identidade.
        Existe um momento que esse jovem não sabe mais o limite entre tudo o que precisa fazer, daquilo que ele é capaz de fazer naquele momento. Então, se desespera achando que nunca será capaz de se tornar um bom médico.
Com seu conhecimento e acesso a algumas drogas, por vezes chegam ao extremo.
        O que fazer?
          - Acredito que em primeiro lugar é preciso OUVIR o que eles têm a dizer, mas ouvir com mente e coração abertos. Jamais os enxergando como “crianças mimadas” que reclamam demais só para terem tempo para esportes e baladas. (Como se fosse crime, em pleno auge da juventude, desejar curtir um pouco a vida. Especialmente esses alunos, que muitas vezes por causa do vestibular, já postergaram tanto qualquer tipo de diversão!)
       - VALORIZAR cada um pelo que ele é. Muitos vivem uma fase de auto-estima abalada ao se compararem com seus colegas. Nesse ambiente competitivo, onde todos seus colegas são os melhores classificados em um dos vestibulares mais difíceis, eles não acreditam mais em suas próprias potencialidades.
Além do que, se conseguir vencer essa fase em que se sente um nada e chegar a alcançar um patamar de sucesso profissional, eventualmente, pode se tornar um médico arrogante. Como falar em humanizar o atendimento, se o médico se sente meio que “sobre-humano” por ter superado tantas dificuldades que qualquer ser humano “normal” não precisa ou não consegue superar?! (Seria essa a postura de alguns médicos mais velhos, ao não compreenderem porque esses mais jovens sofrem tanta angústia?)
          - Entender que atrás desse aluno de Medicina existe um jovem, cheio de energia e potencial, ACEITANDO suas opiniões. Ele tem sonhos (e quantos sonhos maravilhosos!). Ele acredita que pode contribuir de alguma forma para melhorar seu mundo e suas palavras não têm menos valor do que de alguém mais velho, só porque não têm a experiência da vida.
        Ouço muitas vezes que essa é uma "geração mimimi", que foram criados tendo tudo e agora, ao se depararem com uma dificuldade não suportam a pressão.
        PERA Aí! Quem criou essa "geração mimimi" foi a nossa geração! Nós demos aos filhos aquilo que muitos não tivemos. Se eles não estão preparados, foi nossa culpa. Por que os acusamos?
Como é que alguém pode debochar daqueles que estão em sofrimento extremo?
        Essa geração é maravilhosa em seus sonhos de criar um mundo melhor. São eles que se preocupam tanto com a ecologia, com os direitos das mulheres e com a desigualdade social. Talvez possam pensar assim, justamente porque foram criados com muito menos dificuldade. E se não conseguem lidar com determinadas cobranças, talvez seja justamente porque, graças a Deus, não sofreram tanto quando pequenos.
        A responsabilidade é da nossa geração, sim!
        Acredito ser preciso, tal qual o príncipe Willian se ajoelha para falar olho no olho com seu filho, também precisamos descer de nosso pedestal ao falarmos com os jovens.
        Puxa, dói demais em meu coração ao ouvir que um jovem, em ato de desespero tentou por fim à sua própria vida. Em especial esses jovens tão ricos em VIDA, que sonharam em se tornar médicos para lutarem contra a morte e melhorarem a saúde e a vida de seus pacientes.

Ficam aqui registradas minhas lágrimas e pedido de um novo olhar a todos eles.

sexta-feira, 28 de outubro de 2016

ansiedade da espera



Todas as fichas já foram lançadas
O  jogo está na mesa
Só nos resta torcer,
Nada mais a fazer

Tudo que se poderia estudar,
já foi estudado.
Todas as pessoas a quem recorrer por orientação,
já o orientaram.
O melhor que poderia ter sido feito na prova,
já foi feito.

Ufa! Sensação de missão cumprida,
agora só nos resta esperar!
Aiaiai, que ansiedade
até o resultado chegar

Nada mais está em nossas mãos
Momento mais angustiante,
que não nos venha um NÃO frustrante

Hora de aquietar o coração,
Oh, Deus! tudo está em tuas mãos
Respirar fundo e aguardar
cada dia e instante se passar

Para todo o empenho realizado
Sim, tem que ser o melhor resultado!
Nada fará sentido,
caso não seja o escolhido
Não seria justo.
Não, que não haja susto

Não, não pode NÃO ser a vontade de Deus!
não há NÃO, nos planos seus
Sensação de impotência,
haja muita paciência
Só nos resta aguardar
e esperar

Mas, e se….


sexta-feira, 14 de outubro de 2016

Sucesso





Quem mais bem sucedido nesta vida é?
O que sempre adivinha a melhor escolha?
Não, com certeza tão certeiro vidente não há.


Bem sucedido é aquele
que sempre saberá transformar,
suas escolhas, ou a falta delas,
nas melhores decisões a se tomar.
Saber  fazer dos desvios dessa vida,
na grande estrada principal que o conduzirá.


Puxa, em tão pouco tempo
quanto já se conquistou,
mas daqui por diante,
o cenário muito mudou


Hoje, bate as asas mais forte
Por si só, já sabe conduzir-se ao seu norte,
nada
nunca
dependeu apenas de sorte


Ao que olha de longe,
parece que tudo tão facilmente conquistou
Ah, mas não tem idéia de quanto fez
os sonhos pelos quais lutou
Se hoje lá no topo conseguiu chegar
Quantas batalhas dispôs-se a lutar
Engana-se porém,
Quem acha que tudo já comemorou
Aguardem ...
A sua história só começou


quarta-feira, 20 de julho de 2016

voltar a voar


E um dia a gente acorda e tudo mudou

menos comida para fazer
menos bagunça para arrumar
menos lugares para levar

mais silêncio
mais tempo sobrando

Mesmo que não voem para longe,
nossos filhotinhos crescem
e já não precisam mais tanto de nós.

É hora de voltar a se redescobrir:
quem somos,
o que seremos,
o que será de nós daqui prá frente,
do que gostamos,
quais os novos sonhos

às vezes o vazio não é no ninho
mas sim, dentro de nós,
de não saber onde está aquela chama
que outrora queimava forte 
de tentar descobrir qual a função 
que determinará o nosso norte

etapa nova da vida
inúmeras perspectivas pela frente,
basta libertar a corrente.
Nunca é tarde para projetos antigos retomar
ou novos desafios a começar

No livro da vida
novo capítulo a escrever
quantas novas aventuras ainda a viver.
Agora sem ninguém por nós a esperar, 
já é hora de experimentar,
sem filhotes no ninho,
liberdade para voltar a voar.








domingo, 8 de maio de 2016

FELIZ DIA DAS MÃES



Sou a bruxa chata, carrasca e malvada
Aquela que dá bronca, pega no pé e só diz não
Mal sabem eles que muito mais fácil seria,
vestir uma asa e, tal qual fada madrinha,
fazer-lhes as vontades com a varinha de condão

Acordo-os quando querem dormir,
mando dormir quando acordados querem ficar
Tem hora pra comer, brincar e estudar
Meu papel é ser do contra, só prá variar

Ah!!! Mas tenho mais outra contradição
Tenho colo quente em dia frio,
abraço refrescante quando queima o pavio
Beijo mágico que cura dor
sorriso caloroso que espanta o temor

Talvez sejam sinais de minha loucura
noites sem dormir,
agenda maluca a cumprir
Sacrifícios realizados,
orçamentos estourados
(mesmo que às vezes,
  nem mesmo, um simples obrigado)


Dia das mães!
família reunida, presentes recebidos,
nem sempre...

Mas com certeza em nosso coração,
dia certo não há,
mais do que comemoração,
felicidade no ar
perto ou longe,
onde quer que estejam
distância não haverá

Presente mesmo foi aquele dia,
que de mim, você nasceu
se assim não fosse, jamais conheceria
a verdadeira alegria.
Foi quando o mundo mudou de cor
porque ser mãe
é conhecer
a plenitude do amor.




sexta-feira, 6 de maio de 2016

Faculdade de Medicina Albert Einstein



Como muitos têm me perguntado, hoje vou comentar sobre as minhas impressões a respeito do curso de Medicina Einstein. Na verdade, passaram-se apenas 2 meses e meio, mas já deu para perceber quão inovador e bem estruturado está o curso.

Spoiler: só tem elogios!!! Confesso que estou encantada.
Bem, mas o que vou falar é a minha visão particular, como mãe de aluna. Sou médica formada pela USP, então já vivi o que é ser estudante de Medicina. Talvez existam algumas informações imprecisas, pois baseei-me apenas nas observações que fiz acompanhando do lado de fora da sala de aula, apenas ouvindo comentários dos alunos.

1) sobre os alunos:
Como já disse, minha filha faz parte dessa primeira turma de graduação. Foram 50 alunos selecionados de quase 11.000 inscritos. O vestibular foi bastante inovador, baseado em um método de seleção canadense, onde os alunos com os melhores resultados em um vestibular tradicional são submetidos a uma avaliação de características pessoais, em um sistema de múltiplas mini-entrevistas (MME), valorizando-se os alunos que se destacam por sua ética, comunicação efetiva, tomada de decisão, pensamento crítico, liderança, maturidade emocional, resposta adequada às situações de estresse, trabalho em equipe, etc.
Nesse pouco tempo de convívio, já foi muito perceptível o perfil do grupo. São jovens extremamente pro-ativos, líderes, mobilizados e com alta capacidade acadêmica mas que estão aprendendo a trabalhar em equipe. A maioria, durante o Ensino Médio, foi destaque em suas escolas, mas agora é "muito cacique para pouco índio". Muito interessante vê-los aprendendo a trabalhar com colegas de potencial e personalidade semelhantes, onde todos buscam um grande crescimento pessoal, muitas vezes querendo se destacar, uns mais que os outros. É um grande aprendizado para a convivência profissional no futuro.

Algo em particular dessa primeira turma, é que eles precisam fundar seu centro acadêmico, atlética, escolher mascote, criar logotipo, juntar dinheiro para eventos, estabelecer parcerias, etc. Grandes desafios, idéias incríveis, brigas internas, mas muita produtividade. Não têm veteranos, ou seja, nenhum colega mais velho que lhes possa transmitir experiências e vivências. Isso os fez buscar parcerias com muitas outras universidades, o que vem ampliando o networking. Eles já conseguiram participar de vários projetos importantes e, assim, vão conquistando seu espaço no mundo universitário.

2) metodologia
A Faculdade Albert Einstein usa a metodologia do TBL (Team Based Learning) ao invés do Ensino tradicional. O aprendizado é centrado na participação do aluno, os grupos são pequenos de 6 a 8 alunos, exige-se trabalho em equipe e há feedback constante dos professores e dos pares. A formação tem temas como Humanismo, Medicina de Família, Gestão e Liderança e Estágio Optativo em Consultório, o que mostra o diferencial proposto pela instituição em formar médicos com uma visão humanística e também líderes.
Para essas aulas de TBL, o aluno deve chegar com a matéria já pré-estudada, iniciando-se com uma prova de sondagem. Logo a seguir, o grupo realiza discussão de casos e depois confronta suas conclusões com os outros grupos. Um sistema de ensino bastante dinâmico, onde todos precisam participar. As avaliações são feitas baseadas também nessa participação.  As aulas puramente expositivas são raras.
O currículo foi idealizado após visitação a cerca de 15 melhores Medical Schools do mundo, tais como Harvard, Columbia, Oxford, etc. Há mais de 3 anos trabalham com a elaboração do currículo, seleção e treinamento de professores e metodologia.

Algumas outras faculdades de Medicina também estão deixando o currículo tradicional e introduzindo uma nova metodologia. Mas, o problema que muitas vezes ocorre, é conseguir fazer com que todos os professores, que já estão habituados a dar aula do seu jeito, habituem-se facilmente à nova proposta curricular.

3) tecnologia
Nas aulas de morfologia, cada aluno tem um computador, onde acompanham as imagens, além dos microscópios.
No final de cada módulo, fazem um workshop de ultrassom, com 5 aparelhos de última geração. Além dos recursos tecnológicos, que são fantásticos, imaginem por exemplo, uma aula sobre punção guiada, onde eles precisaram puncionar uma uva que estava submersa em um pote de gelatina de uva, usando o ultrassom. (Uau, até eu queria fazer essa aula, rsrsrsrsr!)
Outro exemplo: assim que terminaram o estudo do aparelho locomotor, foram ao Hospital para fazer um estudo de marcha (aquele exame em que se faz uma avaliação computadorizada por meio de pontos de luzes colocados nas articulações)
Enfim, têm à sua disposição, o que existe de mais avançado em tecnologia. Não há limitação de aprendizado por falta de recursos.

Infelizmente as nossas melhores e mais tradicionais faculdades de Medicina do Brasil estão sofrendo com a falta de verbas nas áreas de Saúde e Educação. Por outro lado, a Faculdade de Medicina Einstein está passando longe dessa crise econômica, até porque, ela é o projeto de prioridade da Sociedade Israelita Albert Einstein atualmente. 

4) laboratórios
Logo nas primeiras semanas, recebem um kit com uma grande quantidade de material. Aprendem em bonecos, passar sonda, realizar manobras de ressuscitação e outros procedimentos. Já fizeram aulas no laboratório de simulação realística no hospital, onde os bonecos "reagem" por uma programação computadorizada.

5) visitas às UBS
Se por um lado conhecem e se familiarizam com a medicina de última geração, têm muitas aulas de humanidades e medicina de família. Vão às UBS e fazem visitação nas casas dos pacientes, colocando-os em contato direto com a realidade de vida daqueles que dependem da saúde pública.

6) professores
Este é um dos grandes diferenciais. Cada docente é um profissional referência na área que irá ministrar aulas. Muitos são chefes de serviço no próprio Hospital. Todos precisam possuir títulos de doutorado, no mínimo. Por outro lado, seu vínculo com o aluno é muito forte. Ele os acompanha de forma muito individualizada, sendo visível o orgulho que sente de seus pupilos. Houve uma vez, em que o professor, ao levar seus alunos para a visita no hospital, comprou e mandou entregar um chocolate Kopenhagen para cada um. O professor responsável geral pela turma, entregou um livro de sua autoria para cada um deles, com uma dedicatória individualizada e escrita de próprio punho. O próprio presidente da Instituição também mandou entregar seu livro, com uma dedicatória dizendo "sua presença nos enche de orgulho".
É claro, que existem os professores mais queridos e outros menos. Mas os coordenadores do curso estão presentes o tempo inteiro, atendendo às solicitações, acatando opiniões, inclusive mudando schedules diante das necessidades propostas pelos alunos.

7) conteúdo
O curso é absurdamente puxado! Ouvi de muitos alunos:
"Puxa, eu achava que nunca estudaria tanto quanto estudei na época do cursinho. Mas agora, com tantas atividades e estudo, também não sobra nada de tempo livre"
Além dos TBL, têm muitas provas. Algumas provas são bastante semelhantes às provas de validação do diploma nos EUA, já pensando naquele aluno, que porventura, desejar fazer sua residência fora.

8) iniciação científica
Com 2 meses de curso, a maioria da turma já está envolvida de alguma forma, com algum projeto. Muitos, inclusive, já iniciaram seus trabalhos.
Logo no início do ano, os alunos receberam uma lista com todos os projetos em que poderiam realizar a iniciação, especificando os professores responsáveis, as áreas de atuação, o tempo de duração e o papel de cada aluno na pesquisa. Tudo de forma bastante organizada. Pelo que soube, o aluno sempre tem sido muito bem recebido pelo professor responsável, que lhes abre as portas dos seus laboratórios, estimulando-os a desenvolverem os trabalhos científicos.

9) atividades extra-curriculares
- Eles podem fazer uma aula semanal chamada "food for thought". Assim, quando a aula começa, eles só podem conversar em inglês. Recebem um café da manhã e vão discutir em pequenos grupos algum artigo, não obrigatoriamente com tema médico. Depois apresentam seu posicionamento para os colegas. Essas aulas não são obrigatórias, tendo como objetivo fazer o aluno aprender a conversar e expor suas idéias em inglês
- Quem quiser, pode participar de aulas de meditação.


10) código de ética
Assim como várias universidades americanas (e algumas brasileiras), não é permitido agir de forma anti-ética. Isso inclui a proibição de assinar listas para os colegas ou colar nas provas.


Bem, será que já elogiei o suficiente? heheheheheh
Estou muito feliz com a oportunidade que minha filha tem em fazer parte desta faculdade. Nesse pouco tempo de curso, surpreendi-me não só com o seu desempenho acadêmico, como também com tantas habilidades que vem amadurecendo.

Enfim, acredito que essa faculdade tem tudo para se tornar referência diante de tão alto nível de excelência na área.

Muito orgulho desses "betinhos" !!!

PS: Para quem não entendeu:  Albert(inho) Einstein